sexta-feira, fevereiro 26, 2010

não sabes...




Tenho um foque redondo onde guardo os sonhos. Claro que tu não sabes o que é um foque nem a forma dos meus sonhos. E eu, velho, estou aqui preso a estas paredes neste lar, espécie de casa onde o sol só entra pela manhã e se despede pelo meio dia…
Conto-te as minhas histórias a ti porque não existes por fora de mim, coabitas comigo nas minhas emoções, porque nós nunca fomos diferentes. Não sentimos de maneiras diferentes. Sentimos é com intensidades diferentes. É isso que nos torna unos.
É isso que nos torna unos ou sós. Demasiado sós em nós. Quis-te sempre, tu é que só me quiseste por um breve momento. Foste uma espécie de travessia no atlântico norte. És gelo branco. Na altura parecias-me o paraíso. O amor. Por isso o amor é branco em mim. Tu eras o amor. Possuías era a cor do gelo. Desfiz o mistério desta vez. Não me querias. Achaste piada ás palavras do velho que tenta não ser velho nas palavras e nos sentires.
Estou aqui arrumado nesta espécie de sótão de memórias.
Se puderes vem visitar-me antes que eu morra de saudades. Se puderes.
Descobri que também se morre de saudades nesta casa.
- Esta casa é enorme!
Esta casa é um depósito de emoções. Espécie de livros diversos que falam baixinho. Uma biblioteca que se arrasta pelos corredores receosa. Precisa do auxílio das cadeiras de rodas, das canadianas, das bengalas. De um braço amigo onde descansar as mãos. Esta biblioteca tem mãos, dei-me conta que tem mãos. Sempre gostei de olhar as mãos. As mãos não mentem. Os olhos sim. Raramente olho nos olhos para também eu não mentir, mas o meu olhar já é turvo e nublado. Já não faz mal. Não me importo. A vista foge aos poucos. Acho mesmo que se vieres um dia, não te vou ver. Só se me falares. Me disseres que és mesmo tu. E eu possa seguir o som da tua voz e então num esforço procurar-te com o olhar. Se vieres vem pela manhã por favor. Na hora do sol. É importante que me tragas o sol. Lá nas latitudes extremas gostava de contemplar o sol a nascer desde a ponte do navio. Gostava de lhe dar as boas vindas enquanto tirava a posição do navio com o sextante. Um brilho sem explicação por palavras. Uma espécie de clamor à vida. Lembrava-me de ti sempre pela manhã. Todas as manhãs. Procurava-te com o olhar…
Se vieres e me perguntares se algum dia te amei, respondo-te que não. Não me deste tempo para te amar. Desejei-te só. Acho que te deste conta do meu desejo. Acho também que foi por isso que partiste de mim e me deixaste a tua marca na memória e as palavras nas minhas cartas a ti. Mas tu tiveste a culpa. Quem te mandou perguntar se eu te desejava. Quem? Porque o fizeste? Nunca te enviei as cartas.

Não me deste tempo para te amar mas o desejo meu por ti foi bom principio, há quem por menos, ou pelo menos, o diga assim, ou ache que ama. Eu fui verdadeiro contigo. Sou é tímido, coisa de marinheiro mesmo, mais habituado a acariciar as ondas e o medo, e a brisa. A sentir a névoa no rosto e as estrelas no olhar. Mundos diferentes minha querida. Mundos diferentes.
Confesso-te uma coisa. Tenho saudades. Tenho saudades acredita. Acho que vou morrer de saudades sem ver o mar. Sentir o cheiro da brisa, a névoa no alvor da manhã, o sussurro das velas, o gingar do navio. Tenho saudades. Queria morrer lá. No mar. Não aqui, dentro destas quatro paredes de cor desmaiada onde o sol só entra pela manhã. Onde o silêncio impera ao longo do dia entrecortado de longe a longe pelos sussurros das memórias. As tais bibliotecas que andam e tem as tais mãos que um dia agarraram o mundo. Acariciaram rostos. Imploraram a Deus. As tuas eram pequeninas. Já não sei bem como eram as tuas mãos. Perdoa-me também a memória. É a memória de um velho sem validade arrumado nesta espécie de sótão dos sentires.

Não tenhas pena de mim. Eu não tenho…

João marinheiro 2007

domingo, janeiro 10, 2010

O importante é sentir, o importante do tempo…





Eu tenho um tempo
Um tempo antigo
Estranho, feito de esperas tardias
De partidas no cais
Com lenços e lágrimas
Juras eternas de amor paixão

Posso tocar-te agora na face?
Dar-te a mão?
Senti-la na minha mão grande e cansada. Posso?
Acariciar com tempo cada traço de ti
Posso?
Recordar no tacto como o cego teu rosto sereno
Na partida
Neste cais onde embarco de novo rumo ao sul mar adentro
Tu deixas?
È importante que deixes tocar teu rosto assim com as minhas duas mãos
Fechar os olhos e sentir.
O calor de tua face
Para aquecer nas noites longas de insónia
Estas mãos que esfriam

Eu tenho um tempo antigo, verdadeiramente antigo
Velho como um navio de velas brancas inexistente já em mar alto.
Mar onde me perco saudoso.
As voltas que eu já dei…

Mas o que queria mesmo era sentir-te
Saborear a tua presença junto a mim
Perder-me no brilho do olhar teu. A carícia do olhar…
Sem juras eternas porque nada é eterno.
Sem lenços de despedida
Levar-te comigo
Porque te senti nas minhas mãos agora.

João marinheiro 27/07/06

quarta-feira, janeiro 06, 2010



você pode até desaparecer...


mas o que existe em mim não...
João marinheiro 2010, palavras nossas
Fotografia de Duarte S www.olhares.com

sexta-feira, janeiro 01, 2010

para ti...



Existes
Do outro lado do mar e da paixão
És o desejo vindo na espuma das ondas
Ou o mar todo a esbater-se na areia
Da praia onde os dois caminhamos um dia

Existes
Do outro lado do tempo
O lado errado do coração
Caminhas em contramão
E eu abraço-te sôfrego dos teus lábios

Existes
Do outro lado das palavras
Sussurros do vento a trazer-me noticias tuas
Eu aqui desfraldado o peito frio na penedia olho o mar

Existes

Do outro lado do mar
E tardas em chegar
Tardas…

João marinheiro 2010

domingo, dezembro 20, 2009

quinta-feira, dezembro 17, 2009

chove...

se eu fosse água percorria todos os recantos do teu corpo a saciar os poros da pele.

assim és o meu mar de desejos proibidos até um dia...

quinta-feira, novembro 26, 2009

ainda sei um tantinho de você...




Gosto de te saber desse lado do coração...

domingo, outubro 25, 2009

se eu soubesse...


Se eu soubesse que ias partir
Tinha ficado na esquina da rua para me despedir
Para te dizer adeus
Para te dizer que me levas
O coração todo teu ainda e sempre

Se eu soubesse

Tinha agarrado as tuas mãos pequeninas nas minhas gastas
E coberto de beijos cada curva dos teus dedos
Os lábios sedentos ainda
A ausência tremenda que fomos sempre para lá do tempo

Se eu soubesse que ias partir
Abandonava o barco e o mar, soltava os sonhos de vento
Ficava na rua à tua porta.
Longa a espera
Longo o retorno do tempo que já não temos

Só este incomodo

Um coração que não deixa libertar o sorriso
É um barco naufragado na entrada do Douro
E as pedras vazias da Cantareira.
O velho farol apagado já permanece obscuro na noite

Se eu soubesse

A tua falta em mim
Repetia-te a palavra proibida sempre e sempre
Até a saber de cor ou a dormir ou a sonhar

Amo-te! Amei-te! Amar-te-ei!
João marinheiro, Ineditos 2009
Fotografia de Barcoantigo em 2008

terça-feira, outubro 13, 2009

depois é a tua forma de amar que não me sai do pensamento

o sabor do corpo nos lábios


o calor do abraço...

domingo, outubro 11, 2009


Isto é tão deserto e sem graça sem ti...
João marinheiro 2009
Fotografia de Barcoantigo em 2009

joão marinheiro

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