domingo, dezembro 30, 2007

Um verão distante...

Estou por aqui queimando o tempo
vazio de mim
desejando-te
e tu és memória difusa
de um dia em que te amei
sinto um vazio pleno de emoções
estou despido, nu de sentimentos
desejo-te
já não sei quem és
memória de um dia antigo
um verão distante.

João marinheiro Junho 2004

sábado, dezembro 22, 2007

Ainda ontem...


…Abro os olhos e o dia já acordou a nascente por cima das montanhas alvas que brilham e eu mentalmente dou-te os bons dias com um beijo imaginado nos teus lábios que sorriem como se estivessem à espera que eu os beijasse e fico feliz a estremecer de amor e de ternura que é uma palavra redonda como o sol que aquece por dentro e por fora os dias de agora que são frios de Inverno natalícios depois fico aqui ainda mais um pouco a pensar e a olhar o resto do mundo enquanto te imagino outra vez ontem e hoje e dou-me conta que só te consigo imaginar sempre ontem porque em nós tudo é ontem um passado demasiado breve como foi breve e curta a tua passagem por mim e pergunto-me e fico sem respostas porque as pessoas são pessoas sempre mas por vezes os olhos é que querem ver mais do que a vista pode mas tu não sabes e eu não encontro maneira de te dizer que volto sempre a ti à tal brevidade redonda que penso que somos os dois puros e sem futuro nenhum e agora já não faz mal porque já passou esse tempo e entretanto cruzam-se outras pessoas na vida que ocupam esses lugares escondidos durante uns tempos até serem descobertos e partirem também e é assim que vamos vivendo dia sobre dia camada sobre camada as vidas todas descobrindo por vezes os lugares do coração o lugar escondido e secreto onde te guardo e recordo os momentos especiais e de saudade depois tu sabes mas eu nem me lembro que é natal agora e fico assim à espera porque este é com certeza e só um tempo de espera e na janela o sol vai alto a espreguiçar e eu já desperto vou embora com um calor nos lábios do beijo que imaginei porque o primeiro pensamento do dia foi para te desejar um bom dia o dia possível enquanto aqui a imaginar-te desfaleço e o pensamento voa e eu tenho pena de não ser mas se fosse escritor escrevia só para ti uma peça de teatro um romance ou o verdadeiro poema que és em mim…


( leitura acompanhada pela musica Gimnopedie nº1 de preferencia...)


Ontem, excerto

João Marinheiro, Dezembro 2007
Foto Google

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Alta....


Ou estava???
Ultima hora!
O blog está 6 minutos atrasado no tempo!!!
Relatório medico das 13.19 horas do dia 17 de Dezembro do ano do Senhor

Paciente:

Monitor de plasma Samsung, parecido com o que o Sócrates tinha e que não dava com a impressora…


Abriu os olhos logo pela manhã é verdade, mas algo se passa, varreu-se a memória.
Portanto é um monitor desmemoriado.
Agradecido pela ternura demonstrada e os cuidados enviados na forma de palavras, que por estar assim, lhe soam estranhas.
Às vezes ruidosas.
Outras silenciosas.
Outras não sabe como defini-las.
Na dúvida ficará a conselho da equipe médica que o assiste em repouso mais uns dias, a ver se milagrosamente se conserta, se regenera, se recicla, quem sabe nasce de novo agora que é natal e portanto tudo é possível se, se acreditar com força.
Muita força mesmo.

O próximo relatório será dado se existirem melhoras ou a situação o justifique

Até lá saudinha e muita ternura no coração.

domingo, dezembro 16, 2007

Abre dia 17 logo pela manhã...

sexta-feira, dezembro 07, 2007

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Desafio...



Estas palavras são consequência do desafio que foi proposto por três blogs que visito:

Desde já o meu obrigado pela partilha das palavras. Não é fácil escrever, não me é fácil escrever a partir de um rumo certo quando eu gosto de me perder sem rumo sem agulha de marear. Ficam estas.
As palavras…


Venho por esta rua descendo a calçada. É noite está nevoeiro, a luz amarela baça, húmida, cria ilusões ao longe. Espécie de fantasmas na escuridão. Há pouco, na estação de São Bento partiu mais um comboio apinhado de gente que vai embora rumo a não sei onde. Escutei o som estridente da máquina eléctrica a despedir-se e lembrei do meu tempo em que tinha uma farda, e tu vinhas comigo até ao Porto, esta cidade que revisito em tua busca. Ando de bar em bar a afogar o desejo teu. Caminho. Já não sei. Se este caminhar me leva a algum lugar distante. Preciso do mar aqui junto de mim. Já não sei nada. Desço a rua íngreme em direcção à Ribeira a ver se o rio me leva ao mar. A minha cabeça estoura por dentro, como uma festa de Agosto com foguetes e girândolas de fogo. Arde o meu coração. Lateja, e eu, cansado levo a mão ao peito num gesto mecânico, a tentar mitigar a dor que sinto por dentro. Faltam as forças. Entro noutro bar a ver se estás aqui. Imagino-te e emborco de um trago um copo de whisky velho como eu. Gosto de ti demasiado é isso. Ainda gosto de ti. Interminavelmente gosto de ti. Irei sempre gostar de ti. A palavra é demasiadamente grande em mim, e fica sempre que a pronuncio uma espécie de silêncio a doer por dentro excessivo. Olho em volta mas não vejo nada já. As luzes piscam a arder em clarões vermelhos verdes e azuis, amarelos e brancos intensos. E eu fico almariado, enjoo do balanço psicadélico que vejo, ensurdeço dos gritos que rasgam a noite neste bar tão cheio de gente estranha que dança, pula, e ri, que se abraça divertida. Olho em volta e os casais de namorados amam-se com os olhos as mãos lábios, corpos. Entregam-se com ardor e paixão. E eu inevitavelmente desejo-te e penso em ti. Porque nunca te roubei um beijo consentido e quente, a matar o desejo dos lábios teus. Queria voltar completo e não consigo ainda me sinto aturdido, com os clarões e o álcool a arder por dentro a afogar a sede, as luzes a piscarem como rotativos de ambulâncias perdidas de dor nas avenidas deste Porto estranho. Há pouco vi a arvore metálica grande, luminosa, ilusória, a enganar-me porque ainda não é natal ainda não sinto cheiro do natal e o nevoeiro cega-me e perco os cheiros natalícios. O pai natal é chinês. Só pode ser chinês. Fecho os olhos. Outro dia e eu aqui os olhos fechados a tentarem disfarçar o tempo das horas.
Chego ao Douro da minha esperança, e a água fria, escura, corre rápida indiferente a mim, ao meu drama interior, à minha desorientação dos sentidos, ao meu desnorte. Sinto-me perdido aqui. Esta terra que eu queria nossa. Esta cidade onde te dei a mão a primeira vez. Esta cidade onde me apaixonei por ti. Esta cidade que eu julgava mágica, porque a magia estava em nós.
Vou embora, sigo a margem do rio. Se perguntarem por mim digo que fui ver o mar todo nos teus olhos.
Sim sou eu, só tu não. Só tu já não és hoje, talvez ontem, talvez. Talvez te veja em contra luz. A luz amarela e baça, espessa, diluída no nevoeiro que me faz doer a cabeça. Chego à foz. A caminhada fez-me bem, serenei o espírito, cansei o corpo, dilui o álcool que corria em mim e me fazia eufórico, ébrio de ti. Descanso no varandim do molhe. Olho o velho farol e penso porque lhe tiraram o sino que badalava certo nos dias de nevoeiro como hoje. Escuto o grito da ronca a avisar do perigo os pescadores companheiros meus que andam perdidos. Já não vou ao mar e a vista enche-se de água salgada também. Viro costas ao mar que abraça a água doce que vem cansada por entre vales de pedra e barcos rabelos e memórias a perder-se de amor enamorada do sal. E o mar aqui a esta distancia é tão diferente e sem brilho. O brilho do teu olhar que eu procuro e sonho, e imagino quando caminho na beira-mar na praia das minhas memórias no cabo do mundo, o meu cabo dos medos. Sim tenho medo. Medo de continuar perdido aqui ainda na beira-mar deste oceano tão terno e tão violento, mas é aqui que eu sou pessoa, homem amor amante. Tudo …É aqui, tu sabes que te imagino sempre. Foi aqui que te imaginei quando regressei anos volvidos do mar, cansado. O corpo dorido dos dias cíclicos de trabalho húmido sem ver a terra. Sem regressar à barra do Douro onde te amei.
Ontem estive aqui. Lúcido. O corpo liberto. A mente desperta. Imaginei-te mais e mais. Acho que me enamorei de ti outra vez. Como se isso fosse possível enamorar-me sempre mais e mais. Estavas tão mas tão bonita ontem e a noite ligeiramente fria, mantinha-me desperto. Fui embora quando o nevoeiro da manhã começou a levantar. Tinha o corpo dormente do frio. Tiritava. Hoje vim de novo em tua demandada ao correr da vaga bar em bar. A descer na cava das vagas altas das garrafas. A naufragar. A ver se me afogava de ti. Se me queimava por dentro. Se o fígado cede primeiro que o coração. Porque o coração não me pertence. É teu faz anos. Teu e do mar que um dia me vai levar para a eternidade…

João marinheiro 06/12/07

Fotografia de Sergio Bangher

domingo, dezembro 02, 2007

Ontem II ...


...Estavas tão mas tão bonita ontem e a noite ligeiramente fria e o mar ali ao lado negro escuro a fazer-se escutar um murmúrio baixo intimo a dizer à areia fresca da praia que gosta de a beijar de mansinho pela noite dentro no escuro porque no escuro os amantes se beijam e amam e eu quase sem acreditar que estavas ali à minha frente e era escuro e cintilavam estrelas no céu e escutava-se o mar e sentia-se a maresia salgada e a brisa fria fazia o corpo arrepiar e eu com o coração aos tombos a disfarçar a aflição que sentia porque tanto te procurei pela cidade tanto te busquei nas ruas largas com arvores no meio e bancos em que me lembrava de ter passeado contigo e sentado contigo e nas outras ruas onde imaginei que pudesses ter passado e tu estavas agora ali de surpresa como se o tempo não tivesse avançado sem nós e estavas tão mas tão bonita mais bonita que nunca e eu só me apetecia abraçar-te e roubar-te um beijo dizer-te ao ouvido baixinho como o mar faz que todos os dias penso em ti que o faço no meu mundo secreto o outro lado de mim que o faço da mesma forma que respiro que o faço logo que acordo durante o dia e até quando me deito o ultimo pensamento é teu para ti a dar-te as boas noites a desejar-te um sono feliz porque eu já fico feliz em te saber algures numa das ruas de uma cidade qualquer à beira mar onde possamos passear os dois um dia em que voltes de novo e eu não seja apanhado de surpresa e não fique na duvida se é sonho ou voltaste por fim…

Ontem, excerto

João marinheiro 2007
Fotografia de Barcoantigo2007

quinta-feira, novembro 29, 2007

Ontem...


E estavas tão, mas tão bonita...
João 2007
Fotografia Barcoantigo 2007

sexta-feira, novembro 23, 2007

Interminavelmente...


Fico aqui interminavelmente a imaginar-te a vinda à tua espera tardiamente a ida não chegamos e não partimos estamos desencontrados nas horas dos dias frios espero-te ainda que voltes hoje mais logo pelo entardecer e a tua silhueta recortada na praia em contra luz apetece-me e os teus cabelos soltos e negros ao longe confundem-se no negro da noite que chega a horas certas porque só essas são horas certas e as nossas não eu sei tu sabes e o tempo também e quando voltares estarei envergando a vela alva da nossa catraia para partir outra vez em busca do pão que o mar há-de dar na forma de sardinha prateada e viva mas agora fico aqui a imaginar o teu rosto e o brilho do teu olhar já te disse hoje que o vejo todo no mar o teu rosto e olhar...
joão 2007
Fotografia de Barcoantigo 2003

quarta-feira, novembro 21, 2007

Caminho...


Dou por mim a pensar que vai ser muito difícil de nos encontrarmos. Falta-nos a vontade e o tempo nunca é demais.
Caminho.
As mãos abandonadas nos bolsos do casaco seguem protegidas do frio.
Chove.
Tinha saudades da chuva miudinha a escorrer-me na cara. Desço a rua Augusta, passo o arco e dou com a árvore grande. Metálica, que nos impingiram a fingir que é Natal, e me tira a visão para o Tejo que queria ver hoje.
Observo.
Levanto o olhar até ao cimo onde cintila uma luz fria a imaginar que é uma estrela.
Nas alamedas
Protegidos por papelões e jornais dormem homens desfalecidos. O tempo é estranho e abafado aqui. A cidade transforma-se na noite.
Lisboa
A cidade é sempre demasiado grande. Já não é a minha Lisboa de menino.
Caminho.
Dou por mim a pensar e invade-me um medo que vem de dentro e me afasta de ti.



João 2007
Fotografia de Wilson Antunes

terça-feira, novembro 13, 2007

Queria voltar completo e não consigo...


Queria voltar completo e não consigo ainda me sinto aturdido sôfrego naufrago e o vento sopra mansinho na noite e ontem vi na frente dos olhos uma estrela a cair lentamente como nunca tinha visto nenhuma e já vi muitas mas esta foi especial como a dizer-me adeus e pensei em ti e pedi um desejo daqueles impossíveis de realizar e depois por uns momentos fechei os olhos a ver se te encontrava dentro de mim e estava só mais o barulho do motor cansado das horas puxando o barco a atravessar outra vez a península porque fui à cidade grande em tua busca e tu não estavas nem a norte nem a sul nem a este nem a oeste de mim e assim não sei de que lado fico de ti sem ti aqui.

João 2007
Fotografia de Barcoantigo 2006

sábado, novembro 10, 2007

E o mar aqui...


E o mar aqui, a esta distância, é tão diferente e sem brilho
o teu olhar como um farol na noite a iluminar-me
eu,

depois de o ver uma última vez
Já posso morrer no mar nosso.
Matar a saudade…


João, Barcelona 2007
Foto google

domingo, outubro 28, 2007

Se perguntarem por mim...


Se perguntarem por mim, digo que fui ver o mar, todo, nos teus olhos...
Foto Barcoantigo 2007

sexta-feira, outubro 26, 2007

Outro dia...

Outro dia
e eu aqui
os olhos fechados a tentarem disfarçar o tempo das horas

João 2007

sexta-feira, outubro 19, 2007

Gosto de ti demasiado...

Gosto demasiado de ti de te imaginar para lá da essência das palavras e hoje imagino-te em tempos a brincar quando brincávamos um com o outro e te dizia que eras a minha miúda do Porto e agora o que és nem eu sei sei que não devo usar as palavras assim desta forma a fingir que me recordo sempre de ti a fingir que estás sempre presente a fingir eu sei que agora não estas porque também eu parti faz muitos anos e ás vezes regresso nem sei para quê mas regresso e que se lixe escrevo-te em faz de conta de conta que és um fantasma e depois calcula tu existem por ai quatrocentos biliões de pessoas logo tinhas de não me falar e depois fico a pensar e repensar e repensar e repensar afinal que fizemos os dois para existir esta distância em nós agora que a ponte é nova e bonita porque não a atravessamos os dois outra vez dás-te conta se calhar não percebes mas o facto de andares próxima da minha cabeça faz-me escrever de novo assim de um fôlego sem pontos e vírgulas de uma assentada e se leres vais ler da maneira que queiras ler ou como gostes de ler de soletrar rápida ou devagar mas se calhar não vais ler nunca lês o que eu te escrevo calculo eu mas se queres que te diga não me importo porque verdadeiramente nunca tive uma andorinha nas mãos por isso não sei como és imagino-te e cada vez te imagino menos porque cada vez estamos mais apartados e eu mais cansado e desiludido com tudo e amanhã acordo e vou fingir que nada disto se passou e que nunca nos cruzamos e que nunca nos rimos os dois e que nunca nos quisemos e que tu és a pessoa numero um no mundo e eu a pessoa quatrocentos biliões e fico tão longe e tão próximo de ti mas se eu soubesse cantar entoava-te baixinho a musica nova do Abrunhosa gosto de ti como gosto do sábado mas não sei e também não descubro o teu ouvido ou melhor roubava-te um beijo assim bem devagarinho como o sol a nascer mas não roubo e agora fico aqui pior a gostar demasiado de ti e a entardecer como o resto dos dias


João marinheiro 2007

Fotografia de Barcoantigo 2007

quarta-feira, outubro 10, 2007

É aqui...


É aqui
Que eu sou,
Pessoa
Homem
Amor
Amante.
Tudo!
Nos teus olhos…



João 2007

Fotografia Google

segunda-feira, outubro 08, 2007

Quando sorris na praia...


Porque gosto de te ver sorrir
Vens comigo, hoje, pela praia de mãos dadas caminhar neste Outono cálido…
E porque ficas mais bonita quando sorris
O sol e o mar e o vento, todos, nos teus olhos…
João 2007
Fotografia Barcoantigo 2006

quinta-feira, outubro 04, 2007

Na verdade...


Na verdade nunca partiste.

Invento-te sempre.

A tua ausência…

João 2007
Fotografia Barcoantigo

domingo, setembro 23, 2007

Desejo...


Gostaria de ter estado aqui
contigo
na casa de chá
a ler um poema do Nobre e a olhar o mar.
Todo.
Nos teus olhos...

Quando voltas?



João 2007
Fotografia de Barcoantigo

sábado, setembro 15, 2007

Um abraço...


Tardavas
E quando voltaste deste-me um abraço longo de despedida
abracei-te, um abraço desesperado. As palavras em silêncio por dentro de mim
não consegui dizer-te adeus.
João 2007
Fotografia Pascal Renoux

domingo, setembro 09, 2007

Quanto tempo...



Olha pra mim

o fundo dos meus olhos pelo lado de dentro da emoção e diz-me o que vez.

Quanto tempo demoro ainda a curar-me da tua ausência?
João 2007
Fotografia Noora

terça-feira, agosto 21, 2007

Pela madrugada...



Pela madrugada murmuras-me ao ouvido do outro lado do atlântico

– Hoje, sairia daqui até sem meus sapatos
para te encontrar... jamais perderia tempo em calça-los.

E eu imagino-te de olhos fechados bem juntinha a mim, a tua voz com sotaque.
E chegas no embalo da noite na cumplicidade das trevas
a ternura
e vens
pela madrugada
vens descalça a pisar o chão frio
um misto de prazer e dor
e depois
a surpresa das mãos dadas
a cintura cingida, o teu corpo junto do meu em rodopios no amanhecer
a musica ao longe é uma
musica celestial entoada pelas estrelas
e o sol adormecido, está para lá
do teu olhar ...
João 2007
Fotografia de Maria Corpas

sexta-feira, agosto 17, 2007

Ângulo imperfeito...


Escreves que tens saudades minhas
saudades do meu olhar quando estava contigo

e agora já não

espécie de ângulo imperfeito

o olhar
com que te olho
ou tento
porque o meu olhar é cego já
a vista não te alcança


(…holograma de navio que partes mar adentro na memória…)


João 2007
Fotografia de Georgi Ostashov

segunda-feira, agosto 13, 2007

Espero-te ainda…


Tu não sabes que do outro lado do mundo eu penso em ti
Que te sinto em cada batida do coração a ressoar por dentro dolorido
Que te desejo intensamente. Um vazio estremo
E que o olhar morre lentamente
E as palavras dão à costa naufragadas na memória
E que já não tenho memoria do tempo dos amantes de uma noite.
Não podes saber que as noites agora são sombrias
Os braços de luz do farol se apagaram
O rio secou assoreado nas lágrimas salobras
O mar recolheu a uma terra estranha
E a linha de costa
É uma beira-mar juncada de sargaço morto
E que eu estou aqui ainda
Sentado na beira-rio esperando por ti
Enquanto o frio me invade os sentidos
O mar se recompõe da noite longa e acorda em maresias de sal
A névoa se instala abraçando o mundo
E eu cego tacteio o rumo que me afasta de ti
Espécie de suicídio negro na estrada.
Tu não sabes
Da minha vontade de escutar a tua voz
De te sentir no olhar
De te amar outra vez
Tu não sabes porque és espécie de andorinha que partes
Porque o Verão é doido e parece Outono e te desnorteias
E assim inicias o regresso sempre
E eu fico aqui no outro lado de mim a olhar o mar na noite e o rio e a foz
E o farol apagado que me guiava até ti na lonjura da memória dos tempos…


João, Praia de Fornelos 2007
Fotografia de Pedro Ferreira

quinta-feira, agosto 09, 2007


A esquina da rua é um ângulo abrupto onde eu não te consigo encontrar…
João 2007
Fotografia de Yans Mjolk

sexta-feira, julho 20, 2007

Ontem...


Ontem
Enquanto o dia adormecia nos braços da tarde passaste por mim.
Atravessaste rápido a praça e entraste no Rivoli. Trazias o rosto escondido atrás dos óculos escuros, grandes, na moda. E eu a meio da praça parado fiquei a olhar-te. Não deste por mim e ainda usas o mesmo perfume DKNY. Ficou a pairar a fragrância fresca a frutos exóticos e pétalas de flores.

Continuas bonita e graciosa.

Só não sei se és a mulher que amo ainda ou se te imagino sempre…




João 2007
Fotografia Pablo Danelutto

quarta-feira, julho 18, 2007


Os sonhos são como os barcos
Morrem abandonados na praia...
João 2007
Fotografia Dionisio Leitão

terça-feira, julho 10, 2007



Contigo aprendi a olhar olhos nos olhos
Ensinaste-me a sonhar outra vez...


- E agora?

Porque partes?




João 2007
Foto, António Lobo

sábado, julho 07, 2007

Tanto. Tanto…


Hoje queria-te tanto. Tanto. Tanto
Imaginas a vontade de te abraçar
A vontade de te sentir
De sentir-te a respirar juntinho a mim. Os rostos colados
Um beijo, só um
Queria-te demasiado hoje
Tocar-te. Sentir as tuas mãos
Tu sabes que o meu olhar te sente
Por isso me dizes para não te olhar
Por isso partes sempre, e quando voltas é de partida que estás.
Só eu fico aqui
Para lá do horizonte a tentar falar-te de amor hoje
E dos barcos que amo. Sempre os barcos
Da alma dos barcos
Só eu fico aqui
Espécie de barco velho abandonado para morrer na praia deserta e estranha
Espécie de amor dedicado
Que vou construindo por dentro e por fora
Por dentro de mim e por fora de ti
Demasiado por fora. Um excesso
Porque hoje queria-te tanto
Hoje


João, Ferrol 2007
Foto de Piotr Walski

domingo, julho 01, 2007

Se te amo que vai ser de mim...


E depois fiquei num qualquer hotel de beira de estrada do qual já nem sei o nome.
Fiquei a libertar-me de ti, do teu cheiro no meu corpo, entranhado nas minhas mãos.
Abandonei-me na cama fria e estranha, fechei os olhos, não sei se adormeci ou o cansaço me venceu.
Hoje foi um dia extenuante de trabalho. Sinto-me a tremer por dentro ainda. Tu tens ideia, as horas que passo ao volante, correndo contra o tempo nas auto-estradas que rasgam as entranhas dos vales. Corro sempre para ir ter contigo, porque todos os minutos que perco no caminho me parecem minutos que faltam para estar em ti. E depois de olhos fechados os teus olhos negros fitam-me em silêncio no escuro da noite. E eu penso na vida. A minha vida sem ti. Porque me mandas embora sempre. Porque te quero em demasia já. Porque te toco em demasia já. Porque te sonho em demasia já. Mandas-me embora a altas horas da noite e eu vou e perco-me nas ruas, as estradas desertas. A chuva que cai como lágrimas que sinto frias a brilhar nos olhos frágeis.
- Que fizemos os dois esta noite?
Porque nos magoamos, se nos queremos tanto e tanto e tanto já.
É tarde demais.
Esta noite queria fazer amor contigo. Esta noite adiada. É sempre tarde. Tarde demais para abrir os olhos.
Perdi-me demasiado a beijar os teus seios. Demasiado. Demasiado. Fechaste os olhos e eu parti.
- Que fizemos os dois?
Queria ver-te adormecer e não vi. Queria ver-te acordar e parti.
Parti sem rumo de encontro à noite estranha onde me perdi. No leitor de cds do carro só passava aquela música nova do Abrunhosa, LUZ. Sabes aquela que eu te disse gostar muito por me acalmar. Só passava aquela repetidamente. Insistentemente na tentativa de me acalmar, e eu que já só queria fechar os olhos e deixar-me ir. Assustei-me com os clarões azuis. A auto-estrada com chuva a esta hora da noite é traiçoeira. Os rotativos das ambulâncias a rasgarem o negro e o silêncio. Senti um arrepio frio. Pensei em ti. Demasiado. Em ti e em mim
Que fizemos os dois esta noite em que te queria amar e parti? – Que fizemos os dois?
Instintivamente agarrei com mais força o volante, redobrei a atenção na estrada.
Os teus olhos negros ainda me fitam na noite escura.

Se te amo que vai ser de mim?
João2007
Fotografia Garbarelle

segunda-feira, junho 25, 2007

De ti, porque quero...



Os teus lábios são as borboletas que persigo no sonho
E o corpo todo um caminho que percorro
De encontro aos seios que afago
Enquanto me olhas e te ofereces
Redimida no desejo intenso do amor
Que vejo nos teus olhos onde me banho
Um oceano de ventos e sal e ternura
João 2007
Fotografia: João Sargo, http://www.olhares.com/

segunda-feira, junho 18, 2007


As minhas mãos apenas não..... Quero todo o teu beijo a acarinhar-me a alma hoje…

Palavras amigas oferecidas no momento com mar no meio e saudade e...

fotografia de Drapé Betti

domingo, junho 17, 2007

Imagino-te...


Imagino-te
Imagino-te na noite
Enquanto o farol de braços estendidos rasga a escuridão dos céus
Dás-me as tuas mãos que sinto nas minhas
Corre um vento frio na noite escura
Corre a água do rio de encontro ao mar
Encontram-se os lábios num beijo quente
Encontro o teu peito de encontro ao meu

Imagino-te
Imagino-te na noite que avança

Porque a madrugada é um sonho
Olho-te
Um olhar pelo amanhecer
O mar azul abraça-nos pleno
Vais entrando por dentro de mim
Porque me tocas na incerteza do desejo

João 2007
Fotografia Alexandre Costa/ www.olhares.com

domingo, junho 10, 2007

O momento das mãos...


Convido-te para uma noite especial
E vens de vermelho
O tal vermelho...
Vermelho paixão
Vermelho desejo
Vermelho fogo… de ti

Do teu abraço por dentro de mim
Da minha mão presa na tua
E eu preso no encanto teu
Sem obedecer a regras, vivo
A magia do acto único
O momento
Das mãos


Poema partilhado a duas mãos
Fotografia Google

sábado, junho 02, 2007

Que fizemos os dois?
Um imenso naufrágio nas palavras ditas…

sexta-feira, maio 25, 2007

Só eu...

Só eu estou aqui neste sítio
A mesa redonda demasiado
Pedi um café e a tal tarte de maracujá invisível ao empregado invisível
Aguardo
Olho a porta de entrada em vidro miraculosamente limpo
Tu não estás nem do lado de dentro nem do lado de fora
Espero.
As palavras não saem
Desespero
Hoje tudo é demasiadamente longo
Os minutos das horas
As horas dos dias
Os dias longos da ausência
À tua espera
João 2007

sábado, maio 12, 2007

Tão tarde...


Os olhos olham-te
E o brilho lâminas de sal no rosto
Escorre nas mãos vazias do marnoto

O rio serpenteia a cidade
Atravesso as pontes em tua demanda
Os olhos buscam-te

A palavra chega de encontro ao peito dorido
Não sai
Espécie de eclusa reprimida nos lábios secos do mar

Vou descalço aqui
Do outro lado da ponte existe a solidão vazia
A noite veloz

Os olhos querem-te ainda
Tão tarde. Tão tarde. Tão tarde!
As badaladas certas do relógio


João marinheiro 2007
Fotografia Google

domingo, maio 06, 2007

Blogs que fazem pensar...




Com não sei quanto tempo de atraso venho agradecer a inclusão dos meus blogs nas nomeações dos Blogs que fazem pensar.

Agradeço à Maria do blog; http://ocheirodailha.blogspot.com/






o terem destacado os meus blogs. O facto de o terem feito alem de funcionar como um incentivo a mais escrita, é também a responsabilidade de essa escrita ser cada vez de melhor qualidade, essa a parte difícil, a qualidade, porque quando escrevo nunca sei o que vou escrever, da forma que escrevo ou se o que fica escrito, era efectivamente a ideia que me passou com a brevidade do relâmpago pelo pensamento.


A todos os que me visitam e me lêem. Aos poucos com quem vou partilhando a palavra amigo. A todos os que me detestam. Aos que já partiram e aos que estão para vir o meu obrigado.

E os nomeados são:

Teresa do blog, http://linhasdepensamento.blogspot.com/ pela escrita, a liberdade sentida e entranhada que fica em nós .

Maresia do blog, http://enquantoaonda.blogspot.com/ pela criatividade da escrita, pelo sorriso que provoca, pelo sabor do mar, pelas historias….

Ana do blog; http://ask-im.blogspot.com/ pela paz que se sente a deambular pelas palavras/ imagens, pela força e pelo sonho transmitido.

Cláudia do blog; http://para-sempre-.blogspot.com/ pela divulgação/escolha sempre cuidada da escrita e das palavras.

Cinza do blog; http://cinzaxtulk.blogspot.com/ pelo estado de acalmia das palavras e das imagens em que mergulhamos no seu blog.

A todos os outros que visito e que leio mesmo sem deixar rasto e que também são mercedores de distinção um abraço. Não imaginam a dificuldade em nomear alguém.

João marinheiro

sábado, maio 05, 2007

quinta-feira, abril 26, 2007

Valeu a pena...


Não te pedi o amor que não podias dar
Apenas a amizade
Obtive a negação das palavras passado que foi o momento breve do deslumbre
A negação dos dias vazios

Valeu a pena?

O coração chora
Os olhos secos
Demasiado abertos

Imaginamos a palavra amigo e desbaratamos a amizade.

Os dias são redondos aqui
No outro lado do mundo os dias são oblíquos
E o sol é um sol da meia-noite confuso.
João marinheiro 2007
Fotografia Google

sexta-feira, abril 20, 2007

...Ao acaso escolho-te na rua
Sei perfeitamente que não estás mais comigo
Apenas viverei o suficiente para te esquecer
Fora isso carrego comigo todos os sonhos
Envoltos em lágrimas e em flores
Fechaste a porta.
Chego finalmente ao cais
Onde embarco para o outro lado do mundo.
E tu!
Um dia acordas!

Momento...

quarta-feira, abril 18, 2007

...Os dias que passo do outro lado da vidraça
Os dias que passo do outro lado das grades
Os dias que passo do outro lado do rio...

Eu não sei quem te perdeu...

sexta-feira, abril 13, 2007

Podemos morrer se apenas amámos.

Fernando Pessoa

sábado, março 24, 2007

Um livro no fim de semana...

...Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça. E assim em imagens sucessivas em que me descrevo – não sem verdade, mas com mentiras –, vou ficando mais nas imagens do que em mim, dizendo-me até não ser, escrevendo com a alma como tinta, útil para mais nada do que para se escrever com ela. Mas cessa a reacção, e de novo me resigno. Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada. E alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos, alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a garganta seca. Mas aí, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem por que foi que o não chorei. A ficção acompanha-me, como a minha sombra. E o que quero é dormir…

Bernardo Soares, Livro do Desassossego
(Obras de Fernando Pessoa)

…Permanecemos aqui neste quarto onde a escuridão é eterna claridade. Fora deste lugar nunca viste o mar.

Mas tudo isto se passou noutro tempo, noutro lugar, e a tua boca deixava na minha um travo de asas salgadas…

…Cansei-me de te sonhar. Cansei-me do sangue e da chuva, da memória dessas rotas difíceis.

Donde te escrevo apenas uma parte de mim não partiu.

Encosto a alma à quilha do navio. Deixo-me ir no vaivém das marés. Da fala. A noite singra a pele. E tu escondias a cara num pano branco e quando fitavas as mãos eu sentia medo de um deus.
Nenhum de nós sabia se o sonho, ou a morte, nos conduziria a algum porto de felicidade.

Não me lembro o que aconteceu a seguir.
A noite deixava-se habitar por um silêncio escorregadio.
Veio-me então ao pensamento o grande porto do sul onde aportaras e dizias ter sido feliz.

Quando te digo que vou de novo partir, perguntas-me: morre-se porquê?

Caminhamos em direcções opostas, caminhamos sem destino pela cidade.
Caminhamos neste espaço de penumbras e de incertezas – onde a fala já não cintila e as palavras são de cinza.

E no meio deste silencio uma ideia de voz, uma treva agarrada à memória.

Foi então que dei por mim a existir para lá da tua morte, como se asfixiasse, mas o passado não é senão um sonho, uma brincadeira com clepsidras avariadas e algum sangue.

Não valer a pena estar triste
Todas as histórias, todas as mortes acabam por se apagar.

Um barco tremeluz nas cortinas do quarto.
O horizonte é negro. A luz do dia extinguiu-se subitamente.
As mãos com que te toco, luminoso afogado, não são verdadeiras nem reais – porque o tempo todo talvez esteja onde existimos. Embora saibamos que nesse lugar nunca houve tempo nenhum…

Al Berto, O último Coração do Sonho
Desenho Google

quinta-feira, março 22, 2007

Preciso de sentir entendes...


Aqueço-te as mãos. – Não! – Porquê? Estão frias!
Toco-te o cabelo agora – não! Porquê? Não posso?
Beijo-te – nem penses! Eu sei. Sou eu a sonhar. Sonho acordado quando estou junto a ti. Não sei sonhar a dormir. Preciso de sentir entendes…



...Faço progressos. Aos poucos aprendo a olhar-te olhos nos olhos. Perco os medos e os anseios. Aos poucos, nos breves momentos em que estamos juntos, te sinto à minha beira de roda de mim. Deixo cair as barreiras. Caem uma a uma, as pedras do muro que construí para me proteger. Dás-te conta do que és capaz. Dás?
Em breves momentos o que transformas em mim. Imagina. Conseguisse-mos parar o tempo e ter um tempo nosso, sós durante um pedaço do tempo. Imagina o que seria de mim sem barreiras sem muros, eu verdadeiro e puro a olhar-te no fundo dos teus olhos. Imagina. Eu sou capaz de imaginar. Imagino-te sempre, mesmo nas horas todas e são tantas em que não sei de ti.


joão marinheiro 2007
Fotografia Miguel Pereira/www.olhares.com

quarta-feira, março 21, 2007

Dos Poemas dos Poetas agora...
Amo-te porque os teus lábios dizem: ama-me.
Beijo-te porque a tua boca suplica que te beije.
Trago-te no sangue,
Nas lágrimas,
No noivado das albas,
Nos véus dos crepúsculos.
Continuaria a amar-te
Mesmo que as ausências não fossem (como são)
O calendário solar das memórias que me cabem.
As memórias e o jeito de interroga-las
Pergunto quanto ousaria se estivesses presente:
A harmonia dos gemidos,
A insurreição dos rios
O incêndio das palavras.
Toco o meu corpo e converso com as tuas mãos
Decifro um a um (serenamente) enternecidamente
Os insubornáveis caracteres do desejo.
«Ama-me como se hoje fosse o primeiro
Ou o ultimo dia do mundo», dizes.
E eu deito-me sobre a tua pele
E cavalgo contigo até ao cansaço final.

Hugo Santos

*******

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Nuno Júdice

*******

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

Herberto Hélder

*******


Estávamos no mês de Março
Na caixa do correio, encontrei um postal
Ilustrado: Menez (guache s/papel).
Era teu. E, entre outras coisas
Que guardei para mim, dizia:
Gosto de ti quando sorris ao meu embaraço
De tanto te gostar. Gosto de ti
Mesmo quando estás longe, no alvoroço
De te ter perto. Gosto de ti,
Mesmo quando não parece
E sempre mais do que parece
Que noite morna me nasceu
Então, no corpo como se fosse estio?


Graça Pires

segunda-feira, março 19, 2007

Das pequenas coisas fortuitas…


...Meses depois encontraram-se. Ele não lhe disse das vezes que lhe apeteceu ligar-lhe.
Foi um encontro fortuito, nada diferente dos poucos encontros anteriores, sempre de fugida, o tempo contra eles, as horas que passam demasiado depressa, a pressa de sair dali, o sitio fechado, não se vê o mar e ele sente-se deslocado no tempo e no sitio, só ela o acalma, mas estão distantes de novo, demasiado distantes. Ele não lhe disse que estava maravilhosamente bonita, que num repente lhe sentiu as mãos frias, que gostaria de lhe ter dado as mãos, mas nunca se tocam as mãos.
Que se passou neste tempo de ausências? Que se vai passar a seguir. Só o tempo o dirá. O tempo esse paliativo que cura. Que avança sem nós, inexoravelmente preciso. Só nós nos deixamos ficar, nos perdemos, nos desencontramos. O tempo não, encontra-se de hora a hora nos minutos e nas horas, todas, a somar às horas da ausência que se sente nos dois. Tudo mudou. Eu estou ali sentado na árvore, junto ao pequeno canteiro de relva, onde as rolas pousam a procurar sementes para saciarem a fome ou a vontade da repetição dos gestos ensinados pela sobrevivência da espécie. Eu estou ali, como fantasma que observo no tempo as distâncias que não se vêem mas se sentem por dentro. Não lhes posso dizer, não lhes posso falar. Só observo, é essa a minha função. Observar pessoas. Eu sou o poeta, portanto não existo, sou uma criação literária. Neste momento, nesta criação habito na árvore. Sempre gostei de árvores, nem sei como se chama esta, mas é um pequeno detalhe, já me habituei a ela. Não sei do tempo que aqui fiquei esperando.
Não lhe disse ele que esta pode ser a despedida. A partida, finalmente cumprido que foi o desejo de a olhar uma última vez. A entrega do livro esquecido faz tempo. Faltou na verdade que eu vi o darem as mãos. As mãos nunca se tocam. Só o olhar acaricia os sentidos. O olhar que diz tanto.

...Nunca lhe diz nada, quase nada, limita-se a estar ali, deslocado no tempo e no espaço, e depois parte de novo. Parte cada vez mais. As idas são sempre ausências prolongadas. Eu fico ali, espero que voltem. Desespero para falar verdade. Mas não existo. Não tenho pensar, não tenho sentir. Não tenho opinião. Estou ali para observar pessoas. Observo pessoas. Tenho a pequena particularidade de poder observar por dentro das pessoas, corro-lhes os circuitos. Quer dizer, diluo-me no sangue, vou a todos os sítios dos corpos. Conheço todos os segredos. Sou um guardião de segredos e de sentires, mas eu não sinto nada, não existo, sou criação literária. Às vezes querem que eu exista. Sobrevivo durante uns tempos, como as modas. Depois sou arrumado de novo esquecido. Eu sou todas as palavras…

As palavras...

João marinheiro 2007

Foto Barcoantigo

sábado, março 17, 2007

Um livro no fim de semana...

Vai

Quero escrever e não sei
Uma ultima vez para ti e não sei
Quero fechar a porta da partida
Usar a palavra, o papel, a escrita
E não sei

Não sei dar-lhes o tom solene
As cores do frágil momento que segue a tempestade:

Tu a partires sem quereres, indo
Eu a fingir que não sentia, fingindo
Para depois o tempo valer
Um punhado de segredos sem segredo
Só o resumo dos medos
A angustia acelerada das mutuas perguntas em corpo de culpa
Justificações amarelecidas, fuga e represálias

É assim outra vez
Mais uma vez igual

sexta-feira, março 16, 2007

Olhos nos olhos!

Difícil

Amo-te.

- A palavra!

Vou embora

Já não te espero

Desespero para que venhas

Vou embora porque tenho o olhar cansado

De esperar que surjas entre a vista e

O horizonte imaginário que arde em fogo



Não sei escrever a poesia dos jardins desertos

segunda-feira, março 12, 2007

As palavras de hoje...


As palavras hoje são só para ti

Tuas

Eu volto

Volto às memórias
Aos lugares das memórias
Mesmo breves são boas memórias
Espero que voltes também
Dá-me o tempo para me reconstruir de novo de uma outra forma, de um outro sentir
É isso que queres?
É isso que quero?
O sentir possível
Sentir sem sentimento
Chamemos-lhes assim
Sentir estranho e ausente
A palavra persegue-me como uma obsessão em vida
Eu volto
Volto às palavras porque cada vez me sinto mais só
É isso
Tu não entendes
Eu não tenho forma de te explicar este sentir que me mina as entranhas
Que me mata por dentro
Sou um lobo-do-mar cansado
Cada vez mais cansado
O olhar apaga-se como o farol no alvor da manhã
Às vezes brilha, mas isso é quando te imagino
Imagino-te pouco já, dou-me conta
Por isso volto
Por isso tento imaginar-te no princípio do tempo que já não temos. Será que não?
Temos o tempo adiado
O tempo de amanhã
O tempo de depois de amanhã
O tempo de depois de depois de amanhã
Dou-te a mão
Olhamos para trás
Dás-te conta da distância do tempo que nos separa já
Estas palavras hoje são para ti

Tuas

Só o tempo não…

João 2007
Fotografia Google

domingo, março 11, 2007

És um vinho rubro que sorvo...

Tenho um copo cheio de vinho
Um néctar que embriaga
Um vinho tinto cor de sangue que sorvo em pequeno golos
Enquanto tu
Te desnudas ai bem na minha frente
Sensual
Bela, excitante
Num strip
Ousado
Onde desnudas toda a nudez de teu corpo que imaginei durante tempos
És mestra na arte de seduzir
De excitar
E eu parvo, preso na visão de um corpo perfeito
Fico-me pelas curvas de teus seios
As curvas de tuas nádegas firmes, teu sexo
Que deslumbradamente me apresentas
Como um néctar ou uma fruta proibida
Rosada e madura.

Bebo dois tragos longos deste vinho
Cheio de sabores frutados a frutos secos ou aromas silvestres
Com taninos persistentes que perduram na boca numa dança de sabores
Excitas-me despoduradamente num propósito pré definido neste momento
Em que eu perdido inebriado pelo vinho
Me dispo de vergonhas, timidez ou inexperiência
E te observo
Excitado. Pronto!
No máximo dos máximos retidos a custo…
Quero-te agora. Digo-te. Confesso-te o meu desejo carnal
E tu!
Segura de ti.
Dominadora!
Abres o rosto num sorriso largo, casto, com a candura de uma menina inocente encerrada num corpo de mulher na idade da loba e foges, foges de mim
Do desejo animal, do desejo carnal, do meu desejo intenso…
Quero-te no momento, excitas-me, excitas-me para lá dos sentidos ou das pulsões involuntárias
Fico com sede
Bebo mais um trago deste vinho néctar dos deuses, rubro
E quero-te, e foges de novo entre gargalhadas estéricas.
Porque me fazes isto?
Porque me provocas com essas poses lânguidas, sensuais, excitantes
Vejo teu sexo excitado brilhando por entre as luzes desse palco onde te encontras
Em humidades que eu queria sentir na minha língua
Ou sentir-te minha agora que te desnudas despuduradamente
Ai desse lado do vidro que nos separa…
Faço um esforço para imaginar o sabor de teu corpo
O sabor dos teus beijos soltos e livres
Quero-te! Desejo-te!
Como se fosses uma gaivota branca e cinza voando nos céus
Quero-te assim neste preciso instante perfeita em que te sinto no peito.
Meu amor…
Entrego-me nas tuas mãos
Para que me aceites
Assim com defeitos e ausências
E bebas comigo o resto deste vinho perfeito
Em cor de sangue
De coração que sente e bate perdido no peito.
Deixa-me.
Deixa-me afastar as cortinas ou as vidraças que nos separam
Porque és a primeira por quem me embriago com vinho
Com a luxúria e o sabor do teu sexo entreaberto nas pernas
Tuas, perfeitas que afasto
Enquanto me deixo descansar por dentro de ti
Agora, que é como te imagino em danças
De corpos, num bailado sublime de lençóis e gemidos e suores.
E porque me tremem as pernas, e porque me tremem os dedos, e porque não sinto já a dor no peito dum coração desarvorado em rotações loucas
Venho-me em ti
Num espasmo louco de sémen
Que perdura quente etéreo único no momento
Em que gritas de prazer
Me cravas as unhas na pele
E te deixas abandonada, tremendo, ofegante, ir comigo num orgasmo místico
Onde nos perdemos e deixamos de saber onde estamos
Porque escutamos os gemidos suaves
Ou o som abafado e rápido de corações desconhecidos que batem
Ininterruptos diariamente
Na noite e nos dias dos amantes
Que são todos os dias em que tu
Descaradamente te desnudas num strip estudado ao pormenor
De modo a seduzir-me a mim inocente e casto e puro de actos
Perdido num copo dum vinho envenenado
Com o sabor de teu sexo que desejo
E me mostras assim livre com um sorriso no rosto…
Enquanto te passeias nesta sala em que habito
Dentro de mim
E neste copo de vinho que saboreio
Porque és um vinho rubro que sorvo…

João marinheiro 2006

Como me sinto sem ti…

E eu?
Sabes como me sinto sem ti?
Sem o aconchego da tua voz em mim…

Ando perdido aqui
Cheio de amor transpirando por todo o corpo
Sinto-me vazio sem ti, não somos mais nós…

Estás cada vez mais longe.
Alem, é a distancia que nos separa…
Falta-me a visão para distinguir a tua silhueta inconfundível na multidão
Correr para ti abraçar-te,
Perder-me de encontro a tua boca ávida da minha…

Andas muito calada eu sei
Gosto de ti assim, um silêncio cúmplice
Onde se escuta o mar do silêncio azul profundo
E o bater compassado dos nossos corações em dueto dizendo
Amor! Amor! Amor! Amor!

E porque hoje chove,
E porque esperavas a chuva
Damos as mãos
Vamos sentir a frescura das gotas uma a uma no rosto frias…
Sentir o frio como um gelo que escorrega no peito.

Existimos de roda um do outro, num passe de mágica
Sempre no momento em que o nosso olhar se encontra
No momento em que o nosso corpo se toca
No momento em que o príncipe vem a cavalo e arrebata a cinderela
No momento em que a história deixa de ter um final feliz
E
As palavras
Perdem a candura da inocência

Somos sós, o mar e mais nós…
Resta-nos a palavra para trazer de volta o amor
O teu amor que busco, inventado nas frases tuas em versos…
Que sabem ao salgado do mar, à flor do sal frágil
Brilhando no rosto.
O teu rosto que emolduro na memória com carinho extremo
As lágrimas que vejo assumidas e brilhantes como a lua
O desejo partilhado.
Tantas, mas tantas vezes adiado…

Hoje também eu me sinto em duo
Separado por um fio frágil invisível que me divide ao meio
E o meu meio, passa por dentro de ti, sem te tocar
Maravilha da técnica, da física, ou outra coisa distante.
Fico louco de desejo
Quero-te agora louca
Ou amanhã, doce apaixonada…

Quero-te em dualidade
Doce e louca
De preferência fresca como a água onde te banhas
Ao alvor da manhã ou no acejo da noite
Em qualquer das quatro estações do ano
Mas…
Também eu prefiro o verão, onde te contemplo nua ao sol doirando…

E porque hoje te apetece ser noite calma
Dou-te a mão, levo-te comigo pela beira-rio
Vamos ver os peixes cor de prata brilhando à lua
E sonhar, um no outro
Esperando que a água doce
Encontre o mar ausente por fim…

João marinheiro 2006

sábado, março 10, 2007





Um livro no fim de semana...

…Estou sozinho. Sozinho com o coração em bocados espalhados pelas tuas imagens. Já não posso oferecer-te o meu coração numa salva de prata. Alguma vez o quis? Alguma vez o quiseste? Dava-me agora jeito um deus qualquer para moço de recados. Um deus que te afagasse os cabelos e me recordasse como eram macios. Um deus que me libertasse desta imagem fixa do teu corpo…

…Eu só queria ver de que material era feito o teu amor por mim. Precisava de escangalhar o teu coração para o fazer encaixar no meu…Mas não sei como.
Sem o teu coração não consigo amar – não me abandones outra vez. Logo eu, que amava o mundo inteiro, não é? Amar em abstracto é muito mais ágil que amar em concreto…

Fazes-me falta, Inês Pedrosa

sexta-feira, março 09, 2007

Volta...


…Nenhum deles sabe de onde vem o incomodo daquela falha súbita na intimidade, aquela quebra como uma fenda na paisagem. Ambos esperam que o outro volte a reunir o que parece separado, mas nenhum deles sabe realmente a distancia entre ambos…Vale sempre a pena conhecer pessoas que não se dão à primeira. Gostei de o descobrir, só tenho pena de ter esta sensação de ter deixado tudo no princípio, mesmo a amizade. Há muito tempo que não me apetecia não querer nada de especial de uma pessoa, só a existência dela, a companhia. E, contudo, provavelmente essa pessoa desapareceu já na minha vida…

Aquariofilia, Luís Soares
Fotografia de Zé Pedro/www.olhares .com
…Já me habituei à tua ausência
Ao silêncio do telefone
À caixa de mensagens vazia de notícias tuas
Aos poucos vai a tua imagem desvanecendo-se
Não sei se fico feliz ou triste
Já me habituei a sintetizar as palavras
Deixei de falar ou escrever-te…

sexta-feira, março 02, 2007










Um livro no fim de semana...
…Daqui a nada o dia começará a clarear, abrirá os braços longos sobre as sombras e expulsará a noite, daqui a nada fecharei a janela, a madrugada despertará em mim o frio que ainda não sinto, os arrepios chegarão inevitavelmente, percorrer-me-ão as costas como unhas atrevidas de mulher, daqui a pouco, sei-o, as pálpebras vão começar a piscar mais depressa tardando em adaptar-se à luminosidade em lâmina da manhã…Já não sei há quanto tempo ando para aqui, agarrado ao leme do volante à laia de um velho e fatigado lobo do mar…

In Daqui a nada

Dizes que estás. Mas cada vez estás menos. O vazio instala-se em nós e isso assusta-me. Aprendo a imaginar-te. A falar-te. Aprendo a aprender-te totalmente de novo, e quando surges depois desta aprendizagem toda, este exercício mental solitário. Quando surges dificilmente te reconheço por estares no meio de nada. Sem referencias a terra. Sem um horizonte visual. Encontro só o horizonte imaginário falível, que me permite traçar as coordenadas na carta e rumar até ti. Sei que vou ao engano. Sei que a rota está mal calculada. Também não corrigi a declinação magnética. A agulha gira imprecisa. O barco singra como o bêbado oscilando para ambos os lados e eu desisto!Volto ao rumo certo na carta às viagens de ida e volta. Até porque o barco já não existe. Vendi-o. E o marinheiro que te fala é uma criação literária. Um invento. Salva-se a mão que segura a pena que é real e o coração que sente. Tudo o mais é pura ilusão. Pura!
João marinheiro 2007
Fotografia Google
Por dentro de mim existem dois eus
Um que me renega outro que vai em tua busca
Espera! Não te assustes! Sou eu
São as minhas memórias só…

As palavras pequenas

Habituaste-me a um silêncio espesso
Nestas paredes frias onde me deixo ficar cercado e te invento de memórias
Habituaste-me a não saber de ti e eu verdadeiramente não sei porque me perco aqui onde te escrevo recolhido que estou da luz do sol, do vento e da chuva
E esqueço o mundo
Esqueço-me de viver
Já não te chamo
Nem as palavras pequenas são importantes
Um dia morro e vais ter saudades…


João 2007

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Haja o que houver...



Haja o que houver. Espero por ti!...
Escrevo-te deste e dos outros poemas todos
Onde dizia que te amava
E tu não quiseste crer
Agora já não sei se te amo
Ou se isso é importante em ti
O sentimento que guardo meu

Aprendo a viver a memória tua
A despedir-me de ti
A deixar-te ficar esquecida
Como o livro que se leu e arrumou
E só anos mais tarde ao renovar a biblioteca
Te reencontro amarelecida na memória
Como as folhas do tal livro

E se te folheio
Se te leio
Já não me dizes nada

João 2007
Eu já nada sinto
e afinal
gosto de não sentir nada
sozinho na calma das horas passadas
tão só numa outra quietude
num sossego tão só sossegado
e esquecido
eu me esqueça de mim
aos bocados
adormece-me um sono dormente
que aos poucos se apaga
um sonho qualquer...
mas não me acordes...
não mexas...
não me embales sequer...
eu quero estar mesmo como eu estou
quietamente
ausente
assim
a viagem em que eu não vou
nunca chega até ao fim
é longe
longe

tão longe
que de repente tu chegas


tu brilhas e luzes
na cor das laranjas

tu coras e tinges
a mancha da marca
na alma da luz
da sombra que finges se eu lembro
tu mexes comigo
tu andas cá dentro
à volta do meu coração
no meu pensamento
também
e por mais que eu não queira
tu queres-me bem
e desdobras o mundo em cores
e levas-me pela tua mão
cativando o meu corpo
a minha alma
a razão
só a tua presença
me inquieta
aquela outra ausência
dói
como um passado projecta
aquele futuro que se foi
p'ra longe
longe
tão longe
que nunca se acaba
esta inquietação
se evitas momentos
já quase finais
e ficas comigo
ainda e sempre
um pouco mais...

Fausto Bordalo Pinheiro, Poeta cantor
Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu
coração parar de funcionar por alguns segundos,
preste atenção:
pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver
o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta:
pode ser a pessoa que
você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for
apaixonante, e os olhos
se encherem d'água neste momento, perceba: existe
algo mágico entre vocês.

Se o 1º e o último pensamento do seu dia for essa
pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a
apertar o coração, agradeça:
Algo do céu te mandou um presente divino: O AMOR.

Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por
algum motivo e, em troca, receber um abraço, um
sorriso, um afago nos
cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras,
entregue-se: vocês foram feitos um pró outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida
te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu
sofrimento, chorar as
suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa
maravilhosa: você poderá
contar com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro
da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado...

Se você achar a pessoa maravilhosamente linda,
mesmo ela estando de pijamas
velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados...

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo,
ansioso pelo encontro que está marcado para a
noite...

Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma,
um futuro sem a pessoa ao seu lado...

Se você tiver a certeza que vai ver a outra
envelhecendo e, mesmo assim,
tiver a convicção que vai continuar sendo louco
por ela...

Se você preferir fechar os olhos, antes de ver a
outra partindo: é o amor que chegou na sua vida.

Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida,
mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.

Às vezes encontram e, por não prestarem atenção
nesses sinais, deixam amor passar, sem deixá-lo
acontecer verdadeiramente.
É o livre-arbítrio.


Por isso, preste atenção nos sinais.
Não deixe que as loucuras do dia-a-dia o deixem
cego para a melhor coisa da vida:
O AMOR!!!

Carlos Drummond de Andrade

Para que tu me ouças…

Para que tu me ouças
As minhas palavras
Adelgaçam-se por vezes
Como o rasto das gaivotas sobre as praias.

Colar, guizo ébrio
Para as tuas mãos suaves como as uvas.

E vejo-as tão longe, as minhas palavras.
Mais que minhas são tuas.
Vão trepando pela minha velha dor como a hera.

Elas trepam assim pelas paredes húmidas.
Tu é que és a culpada deste jogo sangrento.
Elas vão a fugir do meu escuro refugio.
Tu enches tudo, amada, enches tudo.

Antes de ti povoaram a solidão que ocupas,
E estão habituadas mais que tu à minha tristeza.

Agora quero que digam o que eu quero dizer-te
Para que tu ouças como quero que me ouças.

O vento da angústia ainda costuma arrastá-las.
Furacões de sonhos ainda por vezes as derrubam.
Tu escutas outras vozes na minha voz dorida.
Pranto de velhas bocas, sangue de velhas súplicas.
Ama-me, companheira. Não me abandones. Segue-me.
Segue-me, companheira, nessa onda de angústia.

Mas vão-se tingido com o teu amor as minhas palavras.
Ocupas tudo, amada, ocupas tudo.

Vou fazendo de todas um colar infinito
Para as tuas brancas mãos, suaves como uvas.

Pablo Neruda.
…Pouca verdade haveria em nós se todas as manhãs começassem assim. Não sei se chegaste aos poucos, trazida pela rotina de mais um dia de trabalho, ou imprevista como as primeiras chuvas, com vontade de conhecer o lado oculto dos naufrágios. Aos poucos prometia-te magnólias pelas manhãs e tu oferecias-me alperces com a inocência de quem desconhece que há vielas onde as mãos se incendeiam. E entre olhares inquietos e cartas de Coríntios tu sorrias e tremias, com um medo de cem alqueires a que eu achava graça.

Cada entardecer era um mistério desvendado pelos teus dedos ansiosos, enquanto crescia nas palavras o mel que os lábios buscavam como alimento. Das mãos as chamas escapavam para profanar lugares por ti já esquecidos, levando abraços, ânforas de pecados, mil propostas para mudar o mundo. Metáforas a mais e a menos, era assim o Tejo pelos fins de tarde. E quando nos escondia a noite, tu aceitavas no rio e nas mãos aquilo que faltava dizer-te Um dia (era Julho) temeste o regresso a terra e antecipaste a chegada do Outono…

Marcelo Teixeira, Terna Ausência

Os olhos rasos de água

Cansado de ser homem durante o dia inteiro
Chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
Entrar dentro ti como num bosque.

É a hora de fazer milagres:
Posso ressuscitar os mortos e trazê-los
A este quarto branco e despovoado,
Onde entro sempre pela primeira vez,
Para falar-mos das grandes searas de trigo
Afogadas na luz do amanhecer.

Posso prometer uma viagem ao paraíso
A quem se estender ao pé de mim,
Ou deixar uma lágrima nos meus
Olhos ser toda a nostalgia das areias.

É a hora de adormecer na tua boca,
Como um velho marinheiro, num barco naufragado,
O vento na margem das espigas.

Eugénio de Andrade

domingo, fevereiro 25, 2007

Dos poemas da Lua...IV

Saudade de amor teu



Deixa-me amar-te agora Lua
Tomar o teu corpo de assalto
Ser o guerreiro, o salteador
Levar-te comigo como troféu
Da minha guerra

Deixa-me amar-te agora
Que te desejo com sofreguidão

Vem comigo
Deita-te ao meu lado
Na minha cama tão grande
Vazia de sentir

Deixa-me possuir-te agora
Sermos um os dois entrelaçados
Sentir-te quente, húmida
De roda de mim

Deixa-me de novo
Saciar a fome em teus lábios suaves
Na quentura de tua língua
Ou no teu arfar excitada

Deixa-me ser imenso e ser mar
Mar saudoso de ti…

João marinheiro 2006

Fotografia de Barcoantigo

Dos poemas da lua...III

Pergunta


Insistes Lua?
Para que eu desfaleça
E me perca num naufrágio imenso
Me renda vencido
E
Confesse o meu amor por ti
Seduzes-me lua!
A revelar-me em cada gesto, em cada acto
Num acto de contrição assumido
Um cântico lúbregue que ressoa
Escuto o eco entre os muros deste castelo prisão

Encantas-me lua!
E eu ando como alma vagueando só
Por entre as ameias e as torres
Deste castelo de fadas…
Escuto o teu canto como ninfa
Mas não te encontro

Quem és Lua?
Quem és?

Tu sabes Lua
Tu sabes…
Um dia vou amar-te perdidamente
Um dia!
Viram as lágrimas que escorrem no olhar
Como os rios que se juntam no mar
Como as pétalas das rosas sem vida caídas
Ou as mágoas doridas no peito
Um dia!

João marinheiro 2006
Fotografia de Barcoantigo

Dos poemas da lua...II

Vem…


Vem, vem de mansinho de novo
Dá-me a tua mão Lua, vamos caminhar na praia lado a lado
Hoje não precisamos falar.
Escutamos o silêncio do mar
Escutamos o som dos nossos corações batendo a um ritmo certo
Compassado
A melodia entoada, é canção, é lamento, é suspiro…
Vem comigo lua, deixa-me mostrar-te o meu outro lado do mar…
Onde se acabam as partituras inacabadas
Onde as lágrimas se juntam
E a saudade deixa de ser um fado negro, ou a canção…
Vem, vem de mansinho
Dá-me a tua mão que eu seguro por entre as minhas
Aprendi a ler nas estrelas
Sei o caminho para o outro lado do mar
Conheço o vento que sopra de oeste
E sei escutar no silêncio…
Vem comigo Lua
Levo-te a um lado que brilha. O mar da prata…
Onde o escuro deixou de reinar
E o poeta se revela finalmente…

João marinheiro, 2006
Fotografia de Barcoantigo

Dos poemas da Lua...I

Poemas dedicados à lua...



Olá Lua...

Sabes que não vivemos um sem o outro
És a minha luz do acejo
Iluminas-me nas noites claras, tranquilas, e nas noites de temporal
Guias os barcos, que sulcam meu corpo de sal
Andamos de mãos dadas na espuma do ondular
Choramos e rimos ao mesmo tempo
Somos gémeos no sentir, portanto nunca nos tocamos...
Posso confessar que amo teus gestos amigos de partilha, partilhamos as palavras com resultados cúmplices...
Espero sempre que surjas, de mansinho, na minha vida em cor de prata.
Ofereces teu corpo arredondado que eu envolvo com meus braços longos de sargaços
Um abraço apertadinho
Sinto teu pulsar rápido, o teu arfar quente
Olho-te e vejo o meu desejo no teu olhar, toco-te a medo
Fecho os olhos, procuro teus lábios, e o encontro vem em vagas de saudade, salpicos de espuma que se misturam na penumbra do momento
Sorrimos os dois, achego-te a mim, sou frio e húmido...
Dás-me a mão, qual medusa frágil
Levo-te montada no meu cavalo-marinho para a minha ilha do outro lado do Mar...
Fitas-me
Sorris e a sorrir confessas: - Gosto de ti mar!
Olá lua
Não me tentes no gostar…
Sabes que não vivemos um sem o outro
És a minha luz da alvura matinal
A praia onde me espreguiço
As rochas onde me bato embravecido
Ou os beijinhos que procuro como criança na borda mar...

João marinheiro de 2006
Fotografia de Barcoantigo

sábado, fevereiro 24, 2007

Estava à janela. Chovia torrencialmente. Ele chegou, estacionou o carro em frente.
Viu-o chegar. Sentiu-o rodar a chave na fechadura. A porta abriu-se com um gemido. Ouviu-o reclamar! - Raio de chuva! - Raio de tempo este, morrinhento! – Só água!
Não disse nada, continuou ali costas voltadas para a porta, só a janela interessava. A luz cinzenta, húmida que alumiava o rosto e as lágrimas na face…
Hoje chove torrencialmente nos meus olhos.
Chove lá fora.
Parece que todas as lágrimas se juntaram na minha janela…
Tu és demasiado recente e eu sou demasiado antigo.
Vamos ficar sempre assim demasiado espaçados.
Diria distantes mesmo.
Essa a palavra
- Sabes! - Arrumei também o livro que estávamos a ler os dois. Aquele livro imaginário. Guardei-o bem escondido para me esquecer dele rapidamente.
Também te escondi na memória para me esquecer rapidamente de ti.
...Insinuas-te ao de leve
Como uma brisa que vem de noite
Sussurras-me ao ouvido
As palavras ternas que quero ouvir
Acordo surpreso
Deste sono mágico
Em que sonho contigo
E estás ai
Brisa, vento do alvor...

Hoje...

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Teu sonho não acabou...

Taiguara um dos musicos que me acompanhou na juventude e que descobri estes dias por cá .
Taiguara despediu-se em 1996...
Ficam as suas palavras, os seus poemas as suas canções a sua musica...

terça-feira, fevereiro 20, 2007

Vens sempre em boa altura, eu é que não sei deixar-te ficar...



I

Desencontramo-nos sempre
Ambos sabemos que o tempo que temos não é nosso
Insistimos em dar as mãos por uns momentos breves
E ser nosso, o tempo que não é nosso
Mas insistimos em tornar presente a ausência que somos.
Desencontramo-nos sempre

II

O tempo que temos
O mesmo tempo inalterado nos minutos. Nas horas
Falta-nos o tempo e somos nós que fabricamos o nosso tempo.
Todo o tempo que já não queremos
Não temos tempo.
Mas o meu tempo é igual. Permanece igual
É um tempo sem tempo
E o teu tempo mudou
Porque mudou a vontade de ter tempo para o meu tempo
Mas o tempo é o mesmo
Só nós não!

III

Vivo entre florestas verdes
Rochas onde a água cai em murmúrios frescos
Lagos onde as libélulas disputam os nenúfares

IV

És retrato
Surges
Entre a penumbra e o belo
Neste quarto a negro e branco
E eu ávido
Cobiço-te tímido com o olhar
Escondido atrás
Do olho mágico da maquina dos retratos…

V

Todo eu sou um imenso corpo que treme, geme, suspira
Uma morte aos poucos desvanecida
O olhar que se perde
A voz que se cala o sorriso que se finda
Esta saudade mata-nos
E a morte é lenta progressiva
Adiada. Adiada. Depois e depois
Esta saudade que mata devagarinho
Devagarinho despediste-te de mim.
Vantagens de uma agenda.
Planear o tempo…

João 2007
Fotografia de Barcoantigo
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