domingo, dezembro 19, 2010

Intermitência via rádio 13-01- 2009

(de uma conversa em canal 16

Sonhas?
sorte a tua
eu não sonho
pelo menos que me lembra
não sonho a dormir
é um mecanismo de defesa contra a saudade
a saudade é uma palavra que anda de braço dado com a ausência...


gosto de me molhar, mas um cobertor não resolvia a situação, ficava muito carregado de água e podia ser perigoso.
Gostas do perigo?
O coração a disparar as pernas a tremerem.
O coração está quente
acho
36.5º
por ai acima passa a estado febril e é uma porra no mar
tenho que andar com o arnês colocado
o arnês é um cordão umbilical que me liga ao barco, espécie de linha de vida, sem vida.



- Bom trabalho para ti hoje. Com muitos satélites nos céus
porque a manhã acordou muito bonita. Gosto de olhar o sol a acordar nestes dias com as nuvens de chuva a competirem umas com as outras.

Há dias vi uma estrela cadente. Deveria de ter pedido um desejo.

Um dia pedi e realizou-se, agora não quero abusar da sorte...

cada vez estou a escrever mais. Imagino que falo com alguém
aqui o som que escuto está no canal 16 em escuta permanente

aceito o beijo mas dispenso a cobertura...
agora vou virar-me para o outro lado...

sábado, novembro 20, 2010

Não se ensina o coração



Ando de roda das palavras agora
A tentar rodear o sentido
E nada faz sentido já.
Desistimos
Abandonamos o sonho, a esperança
Ficamos estranhos.
Refugio-me no escuro
Retomo os antigos discos de vinil negro
Viajo por entre as músicas preferidas de à 30 anos
Dou-me conta do tempo, o tempo voa não pára
Só nós paramos o amor. Um abismo. Construímos um muro.
O frio em nós. É Outono, o tempo incerto.
Faz tempo que abandonei as palavras
A arvore, o pequeno jardim, as mesas da esplanada,
O pequeno café ao final da tarde
Onde nos víamos por dentro olhos nos olhos
O muro em pedra antiga a separar da rua também ela perdida no tempo.
Da ultima vez que te olhei
Estava um pardalito assustado no muro à espera
Que fossemos embora para debicar migalhas espalhadas na mesa
Ainda me recordo dele. Por um relâmpago de tempo olhamo-nos
Não teve medo, permaneceu á espera
Só nós partimos.
Não se ensina o coração a amar


Antas Novembro 2010

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

não sabes...




Tenho um foque redondo onde guardo os sonhos. Claro que tu não sabes o que é um foque nem a forma dos meus sonhos. E eu, velho, estou aqui preso a estas paredes neste lar, espécie de casa onde o sol só entra pela manhã e se despede pelo meio dia…
Conto-te as minhas histórias a ti porque não existes por fora de mim, coabitas comigo nas minhas emoções, porque nós nunca fomos diferentes. Não sentimos de maneiras diferentes. Sentimos é com intensidades diferentes. É isso que nos torna unos.
É isso que nos torna unos ou sós. Demasiado sós em nós. Quis-te sempre, tu é que só me quiseste por um breve momento. Foste uma espécie de travessia no atlântico norte. És gelo branco. Na altura parecias-me o paraíso. O amor. Por isso o amor é branco em mim. Tu eras o amor. Possuías era a cor do gelo. Desfiz o mistério desta vez. Não me querias. Achaste piada ás palavras do velho que tenta não ser velho nas palavras e nos sentires.
Estou aqui arrumado nesta espécie de sótão de memórias.
Se puderes vem visitar-me antes que eu morra de saudades. Se puderes.
Descobri que também se morre de saudades nesta casa.
- Esta casa é enorme!
Esta casa é um depósito de emoções. Espécie de livros diversos que falam baixinho. Uma biblioteca que se arrasta pelos corredores receosa. Precisa do auxílio das cadeiras de rodas, das canadianas, das bengalas. De um braço amigo onde descansar as mãos. Esta biblioteca tem mãos, dei-me conta que tem mãos. Sempre gostei de olhar as mãos. As mãos não mentem. Os olhos sim. Raramente olho nos olhos para também eu não mentir, mas o meu olhar já é turvo e nublado. Já não faz mal. Não me importo. A vista foge aos poucos. Acho mesmo que se vieres um dia, não te vou ver. Só se me falares. Me disseres que és mesmo tu. E eu possa seguir o som da tua voz e então num esforço procurar-te com o olhar. Se vieres vem pela manhã por favor. Na hora do sol. É importante que me tragas o sol. Lá nas latitudes extremas gostava de contemplar o sol a nascer desde a ponte do navio. Gostava de lhe dar as boas vindas enquanto tirava a posição do navio com o sextante. Um brilho sem explicação por palavras. Uma espécie de clamor à vida. Lembrava-me de ti sempre pela manhã. Todas as manhãs. Procurava-te com o olhar…
Se vieres e me perguntares se algum dia te amei, respondo-te que não. Não me deste tempo para te amar. Desejei-te só. Acho que te deste conta do meu desejo. Acho também que foi por isso que partiste de mim e me deixaste a tua marca na memória e as palavras nas minhas cartas a ti. Mas tu tiveste a culpa. Quem te mandou perguntar se eu te desejava. Quem? Porque o fizeste? Nunca te enviei as cartas.

Não me deste tempo para te amar mas o desejo meu por ti foi bom principio, há quem por menos, ou pelo menos, o diga assim, ou ache que ama. Eu fui verdadeiro contigo. Sou é tímido, coisa de marinheiro mesmo, mais habituado a acariciar as ondas e o medo, e a brisa. A sentir a névoa no rosto e as estrelas no olhar. Mundos diferentes minha querida. Mundos diferentes.
Confesso-te uma coisa. Tenho saudades. Tenho saudades acredita. Acho que vou morrer de saudades sem ver o mar. Sentir o cheiro da brisa, a névoa no alvor da manhã, o sussurro das velas, o gingar do navio. Tenho saudades. Queria morrer lá. No mar. Não aqui, dentro destas quatro paredes de cor desmaiada onde o sol só entra pela manhã. Onde o silêncio impera ao longo do dia entrecortado de longe a longe pelos sussurros das memórias. As tais bibliotecas que andam e tem as tais mãos que um dia agarraram o mundo. Acariciaram rostos. Imploraram a Deus. As tuas eram pequeninas. Já não sei bem como eram as tuas mãos. Perdoa-me também a memória. É a memória de um velho sem validade arrumado nesta espécie de sótão dos sentires.

Não tenhas pena de mim. Eu não tenho…

João marinheiro 2007

domingo, janeiro 10, 2010

O importante é sentir, o importante do tempo…





Eu tenho um tempo
Um tempo antigo
Estranho, feito de esperas tardias
De partidas no cais
Com lenços e lágrimas
Juras eternas de amor paixão

Posso tocar-te agora na face?
Dar-te a mão?
Senti-la na minha mão grande e cansada. Posso?
Acariciar com tempo cada traço de ti
Posso?
Recordar no tacto como o cego teu rosto sereno
Na partida
Neste cais onde embarco de novo rumo ao sul mar adentro
Tu deixas?
È importante que deixes tocar teu rosto assim com as minhas duas mãos
Fechar os olhos e sentir.
O calor de tua face
Para aquecer nas noites longas de insónia
Estas mãos que esfriam

Eu tenho um tempo antigo, verdadeiramente antigo
Velho como um navio de velas brancas inexistente já em mar alto.
Mar onde me perco saudoso.
As voltas que eu já dei…

Mas o que queria mesmo era sentir-te
Saborear a tua presença junto a mim
Perder-me no brilho do olhar teu. A carícia do olhar…
Sem juras eternas porque nada é eterno.
Sem lenços de despedida
Levar-te comigo
Porque te senti nas minhas mãos agora.

João marinheiro 27/07/06

quarta-feira, janeiro 06, 2010



você pode até desaparecer...


mas o que existe em mim não...
João marinheiro 2010, palavras nossas
Fotografia de Duarte S www.olhares.com

sexta-feira, janeiro 01, 2010

para ti...



Existes
Do outro lado do mar e da paixão
És o desejo vindo na espuma das ondas
Ou o mar todo a esbater-se na areia
Da praia onde os dois caminhamos um dia

Existes
Do outro lado do tempo
O lado errado do coração
Caminhas em contramão
E eu abraço-te sôfrego dos teus lábios

Existes
Do outro lado das palavras
Sussurros do vento a trazer-me noticias tuas
Eu aqui desfraldado o peito frio na penedia olho o mar

Existes

Do outro lado do mar
E tardas em chegar
Tardas…

João marinheiro 2010

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