quinta-feira, dezembro 06, 2007

Desafio...



Estas palavras são consequência do desafio que foi proposto por três blogs que visito:

Desde já o meu obrigado pela partilha das palavras. Não é fácil escrever, não me é fácil escrever a partir de um rumo certo quando eu gosto de me perder sem rumo sem agulha de marear. Ficam estas.
As palavras…


Venho por esta rua descendo a calçada. É noite está nevoeiro, a luz amarela baça, húmida, cria ilusões ao longe. Espécie de fantasmas na escuridão. Há pouco, na estação de São Bento partiu mais um comboio apinhado de gente que vai embora rumo a não sei onde. Escutei o som estridente da máquina eléctrica a despedir-se e lembrei do meu tempo em que tinha uma farda, e tu vinhas comigo até ao Porto, esta cidade que revisito em tua busca. Ando de bar em bar a afogar o desejo teu. Caminho. Já não sei. Se este caminhar me leva a algum lugar distante. Preciso do mar aqui junto de mim. Já não sei nada. Desço a rua íngreme em direcção à Ribeira a ver se o rio me leva ao mar. A minha cabeça estoura por dentro, como uma festa de Agosto com foguetes e girândolas de fogo. Arde o meu coração. Lateja, e eu, cansado levo a mão ao peito num gesto mecânico, a tentar mitigar a dor que sinto por dentro. Faltam as forças. Entro noutro bar a ver se estás aqui. Imagino-te e emborco de um trago um copo de whisky velho como eu. Gosto de ti demasiado é isso. Ainda gosto de ti. Interminavelmente gosto de ti. Irei sempre gostar de ti. A palavra é demasiadamente grande em mim, e fica sempre que a pronuncio uma espécie de silêncio a doer por dentro excessivo. Olho em volta mas não vejo nada já. As luzes piscam a arder em clarões vermelhos verdes e azuis, amarelos e brancos intensos. E eu fico almariado, enjoo do balanço psicadélico que vejo, ensurdeço dos gritos que rasgam a noite neste bar tão cheio de gente estranha que dança, pula, e ri, que se abraça divertida. Olho em volta e os casais de namorados amam-se com os olhos as mãos lábios, corpos. Entregam-se com ardor e paixão. E eu inevitavelmente desejo-te e penso em ti. Porque nunca te roubei um beijo consentido e quente, a matar o desejo dos lábios teus. Queria voltar completo e não consigo ainda me sinto aturdido, com os clarões e o álcool a arder por dentro a afogar a sede, as luzes a piscarem como rotativos de ambulâncias perdidas de dor nas avenidas deste Porto estranho. Há pouco vi a arvore metálica grande, luminosa, ilusória, a enganar-me porque ainda não é natal ainda não sinto cheiro do natal e o nevoeiro cega-me e perco os cheiros natalícios. O pai natal é chinês. Só pode ser chinês. Fecho os olhos. Outro dia e eu aqui os olhos fechados a tentarem disfarçar o tempo das horas.
Chego ao Douro da minha esperança, e a água fria, escura, corre rápida indiferente a mim, ao meu drama interior, à minha desorientação dos sentidos, ao meu desnorte. Sinto-me perdido aqui. Esta terra que eu queria nossa. Esta cidade onde te dei a mão a primeira vez. Esta cidade onde me apaixonei por ti. Esta cidade que eu julgava mágica, porque a magia estava em nós.
Vou embora, sigo a margem do rio. Se perguntarem por mim digo que fui ver o mar todo nos teus olhos.
Sim sou eu, só tu não. Só tu já não és hoje, talvez ontem, talvez. Talvez te veja em contra luz. A luz amarela e baça, espessa, diluída no nevoeiro que me faz doer a cabeça. Chego à foz. A caminhada fez-me bem, serenei o espírito, cansei o corpo, dilui o álcool que corria em mim e me fazia eufórico, ébrio de ti. Descanso no varandim do molhe. Olho o velho farol e penso porque lhe tiraram o sino que badalava certo nos dias de nevoeiro como hoje. Escuto o grito da ronca a avisar do perigo os pescadores companheiros meus que andam perdidos. Já não vou ao mar e a vista enche-se de água salgada também. Viro costas ao mar que abraça a água doce que vem cansada por entre vales de pedra e barcos rabelos e memórias a perder-se de amor enamorada do sal. E o mar aqui a esta distancia é tão diferente e sem brilho. O brilho do teu olhar que eu procuro e sonho, e imagino quando caminho na beira-mar na praia das minhas memórias no cabo do mundo, o meu cabo dos medos. Sim tenho medo. Medo de continuar perdido aqui ainda na beira-mar deste oceano tão terno e tão violento, mas é aqui que eu sou pessoa, homem amor amante. Tudo …É aqui, tu sabes que te imagino sempre. Foi aqui que te imaginei quando regressei anos volvidos do mar, cansado. O corpo dorido dos dias cíclicos de trabalho húmido sem ver a terra. Sem regressar à barra do Douro onde te amei.
Ontem estive aqui. Lúcido. O corpo liberto. A mente desperta. Imaginei-te mais e mais. Acho que me enamorei de ti outra vez. Como se isso fosse possível enamorar-me sempre mais e mais. Estavas tão mas tão bonita ontem e a noite ligeiramente fria, mantinha-me desperto. Fui embora quando o nevoeiro da manhã começou a levantar. Tinha o corpo dormente do frio. Tiritava. Hoje vim de novo em tua demandada ao correr da vaga bar em bar. A descer na cava das vagas altas das garrafas. A naufragar. A ver se me afogava de ti. Se me queimava por dentro. Se o fígado cede primeiro que o coração. Porque o coração não me pertence. É teu faz anos. Teu e do mar que um dia me vai levar para a eternidade…

João marinheiro 06/12/07

Fotografia de Sergio Bangher

domingo, dezembro 02, 2007

Ontem II ...


...Estavas tão mas tão bonita ontem e a noite ligeiramente fria e o mar ali ao lado negro escuro a fazer-se escutar um murmúrio baixo intimo a dizer à areia fresca da praia que gosta de a beijar de mansinho pela noite dentro no escuro porque no escuro os amantes se beijam e amam e eu quase sem acreditar que estavas ali à minha frente e era escuro e cintilavam estrelas no céu e escutava-se o mar e sentia-se a maresia salgada e a brisa fria fazia o corpo arrepiar e eu com o coração aos tombos a disfarçar a aflição que sentia porque tanto te procurei pela cidade tanto te busquei nas ruas largas com arvores no meio e bancos em que me lembrava de ter passeado contigo e sentado contigo e nas outras ruas onde imaginei que pudesses ter passado e tu estavas agora ali de surpresa como se o tempo não tivesse avançado sem nós e estavas tão mas tão bonita mais bonita que nunca e eu só me apetecia abraçar-te e roubar-te um beijo dizer-te ao ouvido baixinho como o mar faz que todos os dias penso em ti que o faço no meu mundo secreto o outro lado de mim que o faço da mesma forma que respiro que o faço logo que acordo durante o dia e até quando me deito o ultimo pensamento é teu para ti a dar-te as boas noites a desejar-te um sono feliz porque eu já fico feliz em te saber algures numa das ruas de uma cidade qualquer à beira mar onde possamos passear os dois um dia em que voltes de novo e eu não seja apanhado de surpresa e não fique na duvida se é sonho ou voltaste por fim…

Ontem, excerto

João marinheiro 2007
Fotografia de Barcoantigo2007

quinta-feira, novembro 29, 2007

Ontem...


E estavas tão, mas tão bonita...
João 2007
Fotografia Barcoantigo 2007

sexta-feira, novembro 23, 2007

Interminavelmente...


Fico aqui interminavelmente a imaginar-te a vinda à tua espera tardiamente a ida não chegamos e não partimos estamos desencontrados nas horas dos dias frios espero-te ainda que voltes hoje mais logo pelo entardecer e a tua silhueta recortada na praia em contra luz apetece-me e os teus cabelos soltos e negros ao longe confundem-se no negro da noite que chega a horas certas porque só essas são horas certas e as nossas não eu sei tu sabes e o tempo também e quando voltares estarei envergando a vela alva da nossa catraia para partir outra vez em busca do pão que o mar há-de dar na forma de sardinha prateada e viva mas agora fico aqui a imaginar o teu rosto e o brilho do teu olhar já te disse hoje que o vejo todo no mar o teu rosto e olhar...
joão 2007
Fotografia de Barcoantigo 2003

quarta-feira, novembro 21, 2007

Caminho...


Dou por mim a pensar que vai ser muito difícil de nos encontrarmos. Falta-nos a vontade e o tempo nunca é demais.
Caminho.
As mãos abandonadas nos bolsos do casaco seguem protegidas do frio.
Chove.
Tinha saudades da chuva miudinha a escorrer-me na cara. Desço a rua Augusta, passo o arco e dou com a árvore grande. Metálica, que nos impingiram a fingir que é Natal, e me tira a visão para o Tejo que queria ver hoje.
Observo.
Levanto o olhar até ao cimo onde cintila uma luz fria a imaginar que é uma estrela.
Nas alamedas
Protegidos por papelões e jornais dormem homens desfalecidos. O tempo é estranho e abafado aqui. A cidade transforma-se na noite.
Lisboa
A cidade é sempre demasiado grande. Já não é a minha Lisboa de menino.
Caminho.
Dou por mim a pensar e invade-me um medo que vem de dentro e me afasta de ti.



João 2007
Fotografia de Wilson Antunes

terça-feira, novembro 13, 2007

Queria voltar completo e não consigo...


Queria voltar completo e não consigo ainda me sinto aturdido sôfrego naufrago e o vento sopra mansinho na noite e ontem vi na frente dos olhos uma estrela a cair lentamente como nunca tinha visto nenhuma e já vi muitas mas esta foi especial como a dizer-me adeus e pensei em ti e pedi um desejo daqueles impossíveis de realizar e depois por uns momentos fechei os olhos a ver se te encontrava dentro de mim e estava só mais o barulho do motor cansado das horas puxando o barco a atravessar outra vez a península porque fui à cidade grande em tua busca e tu não estavas nem a norte nem a sul nem a este nem a oeste de mim e assim não sei de que lado fico de ti sem ti aqui.

João 2007
Fotografia de Barcoantigo 2006

sábado, novembro 10, 2007

E o mar aqui...


E o mar aqui, a esta distância, é tão diferente e sem brilho
o teu olhar como um farol na noite a iluminar-me
eu,

depois de o ver uma última vez
Já posso morrer no mar nosso.
Matar a saudade…


João, Barcelona 2007
Foto google

domingo, outubro 28, 2007

Se perguntarem por mim...


Se perguntarem por mim, digo que fui ver o mar, todo, nos teus olhos...
Foto Barcoantigo 2007

sexta-feira, outubro 26, 2007

Outro dia...

Outro dia
e eu aqui
os olhos fechados a tentarem disfarçar o tempo das horas

João 2007

sexta-feira, outubro 19, 2007

Gosto de ti demasiado...

Gosto demasiado de ti de te imaginar para lá da essência das palavras e hoje imagino-te em tempos a brincar quando brincávamos um com o outro e te dizia que eras a minha miúda do Porto e agora o que és nem eu sei sei que não devo usar as palavras assim desta forma a fingir que me recordo sempre de ti a fingir que estás sempre presente a fingir eu sei que agora não estas porque também eu parti faz muitos anos e ás vezes regresso nem sei para quê mas regresso e que se lixe escrevo-te em faz de conta de conta que és um fantasma e depois calcula tu existem por ai quatrocentos biliões de pessoas logo tinhas de não me falar e depois fico a pensar e repensar e repensar e repensar afinal que fizemos os dois para existir esta distância em nós agora que a ponte é nova e bonita porque não a atravessamos os dois outra vez dás-te conta se calhar não percebes mas o facto de andares próxima da minha cabeça faz-me escrever de novo assim de um fôlego sem pontos e vírgulas de uma assentada e se leres vais ler da maneira que queiras ler ou como gostes de ler de soletrar rápida ou devagar mas se calhar não vais ler nunca lês o que eu te escrevo calculo eu mas se queres que te diga não me importo porque verdadeiramente nunca tive uma andorinha nas mãos por isso não sei como és imagino-te e cada vez te imagino menos porque cada vez estamos mais apartados e eu mais cansado e desiludido com tudo e amanhã acordo e vou fingir que nada disto se passou e que nunca nos cruzamos e que nunca nos rimos os dois e que nunca nos quisemos e que tu és a pessoa numero um no mundo e eu a pessoa quatrocentos biliões e fico tão longe e tão próximo de ti mas se eu soubesse cantar entoava-te baixinho a musica nova do Abrunhosa gosto de ti como gosto do sábado mas não sei e também não descubro o teu ouvido ou melhor roubava-te um beijo assim bem devagarinho como o sol a nascer mas não roubo e agora fico aqui pior a gostar demasiado de ti e a entardecer como o resto dos dias


João marinheiro 2007

Fotografia de Barcoantigo 2007

joão marinheiro

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